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Inimigo Oculto

30/07/2018

| por:Stella de Domênico

No desenho animado da Disney, “A Espada era a lei”, o mago Merlin vence a Madame Min no duelo de magos com a arma mais poderosa de todas. Nada de espadas nem dragões cuspindo fogo. Ele usa o vírus do sarampo e a deixa doente.

Domingo de sol. Tudo seria normal aqui em casa se eu não aceitasse um pedido feito por um grupo de resgates para abrigar, no meu canil, uma cadela recém parida e seus 9 filhotes mais uma cadelinha bebê de outra ninhada. Mamãe chegou arisca, suja, assustada, desnutrida, muito magra e desconfiada. Foram todos para o canil que estava pronto para recebê-los. E lá ficou ela no canto quentinho e limpo dando de mamar para seus bebês multicoloridos.

Mamãe morreu três dias depois quando estava internada por desnutrição em uma clínica particular. Os nove filhotes ficaram. Foram amamentados por todos aqui em casa, amigas e vizinhos que vieram ajudar na mamadeira a cada quatro horas. Sentiam falta da mãe, do calor dela e do aconchego das mamas de leite. Foram sete dias de luta e noites sem dormir cuidando desses bebês órfãos. Até que a branquinha e a pretinha apresentaram os primeiros sinais de doença letal. Morreram no dia seguinte. E depois, quando todos ficaram doentes, tivemos que tomar a decisão mais dura de toda a minha vida, a decisão pela qual jurei nunca passar: condená-los à eutanásia.

A única salva dessa história toda foi a bebê da outra ninhada. Após dois exames foi declarada saudável e hoje vai para seu novo lar adotivo. Uma amiga querida de muitos anos vai ficar com ela. Era Jasmim e agora é Susi.

O vírus infectou minha casa e poderia ter contagiado meus dois cachorros saudáveis. Fiquei desesperada. Lavei tudo, joguei coisas no lixo, litros de água sanitária e Lysoform bruto. Tudo bem por aqui. Mas o susto foi gigante. Nunca me perdoaria por prejudicar a vida de alguém, ainda que o alguém seja um cachorro.

Um vírus. Um ser invisível que derrubou a Madame Min. Se fosse um dragão cuspindo fogo seria mais fácil de matar. Se fosse uma espada apontando para o meu coração ainda assim daria para escapar. Mas um vírus.

Me pergunto se valeu a pena e não sei a resposta ainda. Sim pela Susi. Sim por ter dado algum amor e carinho à mamãe que nunca na vida havia ganhado um beijo ou um afago. Sim pelos filhotes e a esperança de vê-los crescer e de encaminhá-los. Não pelo risco que expus, sem querer, meu Chico e minha Flora. Não pela tristeza e lágrimas por ter perdido a luta para um vírus. Por tudo isso ainda não sei a resposta. Espero que ao reler esse texto, um dia, eu saiba o que aprendi com tudo isso. Hoje eu não sei. E amanhã ainda é cedo para saber.

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Escrito Por Stella Domênico

Coluna sobre a vida com textos cheios de opinião da conselheira de cultura de Águas Claras Stella de Domênico.

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