A temporada 2026 de festas juninas terá início no próximo final de semana e irá reunir gastronomia típica, brincadeiras e apresentações de quadrilhas que carregam histórias de dedicação, fé e transformação social.
Em meio às bandeirinhas coloridas, ao cheiro de canjica e ao som da sanfona, o Arraiá de Águas Claras volta a movimentar a cidade no próximo fim de semana. Marcado para os dias 22 e 23 de maio, no estacionamento do Centro Universitário UNIPLAN, o evento espera receber cerca de 10 mil pessoas e reforça seu espaço como uma das festas mais aguardadas do calendário cultural da região administrativa.

Mas, longe de se resumir à programação musical, às barracas ou à decoração temática, o coração do evento está nas quadrilhas juninas, grupos que passam meses se preparando para apresentações que duram poucos minutos, mas carregam anos de história, tradição e emoção.
Por trás da organização da festa está um planejamento que acontece durante todo o ano. Uma das responsáveis pelo evento, Ana Paula Leite Sousa, destaca que a proposta é preservar o caráter familiar que ajudou o arraiá a crescer ao longo dos anos.
“Baseado nos outros anos e com toda preparação que fizemos, esperamos 10 mil pessoas no evento.
Estamos organizados e com uma programação muito bacana para todas as idades”, afirma.
Ana Paula divide a organização com Daniel Duarte e explica que o evento busca oferecer mais do que entretenimento.
“Mais do que uma festa, o Arraiá Águas Claras é um evento construído de famílias para famílias. Toda a organização pensa cuidadosamente em cada detalhe para proporcionar uma experiência acolhedora, segura e especial para a comunidade”, ressalta.


Nesta edição, o público encontrará mais de 25 barracas com comidas típicas como quentão, canjica, pipoca, churros, arroz carreteiro, escondidinho, camarão, maçã do amor e derivados do milho. A programação também inclui pescaria, tiro ao alvo, brinquedos infláveis e espaços de convivência para crianças e adultos.
Meses de preparação para minutos de espetáculo
Entre os grupos que sobem ao palco está a Quadrilha Junina Si Bobiá a Gente Pimba, que há 34 anos mantém viva a tradição junina e participa do Arraiá de Águas Claras desde a primeira edição.
Fundador e marcador do grupo, Claudeci Martins afirma que o espetáculo envolve muito mais gente do que o público imagina.
“Entre 400 a 500 pessoas participam diretamente ou indiretamente da construção do espetáculo”, conta.
Segundo ele, os preparativos começam ainda no ano anterior.
“Os trabalhos começam em outubro com a pesquisa do tema e se intensificam em janeiro, quando começam os ensaios. Tudo aqui é construído pelos próprios brincantes.”
Antes das apresentações, o grupo mantém rituais que fortalecem a união.
“Temos nosso aquecimento, que já é uma marca registrada da Si Bobiá, e claro, não pode faltar o grito de guerra”, diz.
Claudeci relembra ainda um momento inesquecível da trajetória do grupo.
“Vivenciar uma turnê pela Europa e encontrar brasileiros que estavam há anos longe do país foi algo marcante para todos nós.”
Para ele, continuar dançando quadrilha é manter viva uma herança cultural.
“É a preservação da essência e da memória afetiva.”
Quadrilha como projeto social
Outra atração do evento será a Quadrilha Sabugo de Milho, grupo que também leva ao arraiá histórias de transformação social e pertencimento.
A coreógrafa e quadrilheira Larissa Beatriz, de 25 anos, participa do movimento junino desde os 13 e hoje
encara o desafio de criar coreografias para cerca de 140 dançarinos.
“Temos aproximadamente 70 casais dentro da quadra. Lidar com tantas personalidades e expectativas é bastante trabalhoso”, relata.
Ela conta que o processo criativo acontece de forma intuitiva.
“Fecho os olhos, coloco a música para tocar e repito até os passos surgirem na minha cabeça.”
Para Larissa, os grupos juninos cumprem um papel social importante.
“Hoje enxergo o movimento junino muito além da dança. Esses grupos são projetos sociais. As pessoas encontram abrigo e refúgio no movimento.”
A também coreógrafa Bárbara Elen Passos destaca a responsabilidade de criar para um grupo tão tradicional.
“É uma mistura de responsabilidade com orgulho ver o grupo dançando as minhas coreografias.”
Ela também chama atenção para a falta de investimento no setor.
“A falta de investimento em um movimento artístico popular como a quadrilha junina é uma realidade em Brasília. Os custos são muito altos.”


marcador e presidente do grupo de quadrilha sabo
Sabugo de milho
O presidente e marcador da Sabugo de Milho, Alexandre da Silva Marques define o grupo como o maior projeto de sua vida. O que começou como uma pequena quadrilha comunitária tornou-se uma das maiores do Distrito Federal e atual bicampeã da federação.
Ainda assim, ele afirma que as maiores conquistas não são os títulos.
“Teve gente que viajou para a praia pela primeira vez, conheceu o mar pela primeira vez e saiu de Brasília pela primeira vez por causa da quadrilha. É isso que faz valer a pena.”
Entre ensaios, orações coletivas, abraços antes das apresentações e lágrimas após os espetáculos, Alexandre resume o sentimento que move o grupo.
“A gente luta para que todo mundo se sinta acolhido.”
Em uma região conhecida pelos edifícios altos e pela rotina acelerada, o Arraiá de Águas Claras mostra que ainda há espaço para tradições que ultrapassam gerações. Entre vestidos rodados, passos sincronizados e receitas que atravessam famílias, a festa reafirma por que continua sendo, ano após ano, a verdadeira tradição das tradições.







